Mulheres indianas, mulheres brasileiras

November 26, 2005

Mulheres bonitas, Ganges, castas e Ghandi. Para muitos, a Índia se resume nisso. E daí a surpresa do homem comum ao descobrir que o cinema indiano supera a concorrência hollyoodiana – quantitativamente – e que a indústria informática de lá é uma das mais bem conceituadas do mundo.

A Índia segue sendo um país de diferentes e de desiguais. As distâncias sociais são legitimadas por um proterozóico sistema de castas. Resquícios feudais, diriam alguns. Civilização diferente, defendem outros.

Essa organização social rígida é de longa data. Segundo alguns estudiosos, o sistema de castas já dura quase dois milênios. Sua origem está numa lenda: os humanos se originaram de um Ser Primeiro. Julga-se que as pessoas saíram desse corpo-base a cumprir cada qual com sua função.

Nesse raciocínio, os braços deram origem aos guerreiros (xátrias), a boca aos sacerdotes (brâmanes), as coxas aos comerciantes (vaixás), os pés aos trabalhadores braçais (sudras). Para terminar, os parias (achuta ou dalit) - que não saíram de parte nenhuma do Ser Original.

Os parias são impuros, intocáveis. São seres humanos merecedores de desprezo. Não podem sequer entrar no rio Ganges, sagrado para o Hinduísmo. Curiosamente, são os nativos da Índia, uma vez que as outras castas são originárias de povos invasores.

As atividades dos dalit estão relacionadas a impureza. Trabalham com lixo, excrementos, corpos mortos. Mesmo escapando dessas atividades, sua remuneração será sempre mais baixa.

Assim, escancara-se que pouco bem à coletividade faz o sistema de castas. Combinado ainda com um capitalismo selvagem de meter medo a qualquer vespa-do-mar, o resultado não seria nada humanamente desejável.

Pois bem. Para variar, a sociedade indiana encarna ainda profundos princípios machistas. Da concepção à morte, há profunda desigualdade entre os gêneros. Assassinato de mulher não desperta tanto interesse da justiça. Mulher estuprada? A culpa é da vítima, lógico. Quem mandou andar seminua?

Em 1989, o Estado de S. Paulo publicava uma reportagem que ressaltava a grande incidência de infanticídios entre as crianças do sexo feminino. Hoje, pouco mudou. Com uso tecnológico nos exames pré-natais, aumentou-se o aborto de meninas. Há notícias de que em muitas famílias importantes do interior da Índia gurias são raridades.

A verdade é que ser mulher na Índia não é tarefa fácil. O costume de o sogro pagar o dote da mulher ao genro, quando se casa, tem transformado o casamento em poderoso instrumento de barganha. Não é raro o moço chantagear o sogro, ameaçando encerrar o enlace caso não receba mais algumas pilas. Não são casos excepcionais espancamento de mulheres para abrir a carteira do sogro. Também não é incomum a mulher abreviar todas essas querelas, suicidando-se.

Essa é a vida das mulheres pertencentes às famílias que podem ofertar dotes ‘gordos’. Imagino que as moças e senhoras parias sofram bem mais. O sofrimento é duplo, como atesta Anasuya Sengupta, feminista indiana.

Dados mostram que a violência contra a mulher é mais recorrente nas famílias de baixa renda. Obviamente, há casos bem representativos no topo da pirâmide social. Mas a possibilidade da mulher ser vítima de agressões é muito maior caso ela seja pobre e com baixo nível de instrução.

Se baixar algum “sentimento pollyana” em você, sacuda imediatamente os ombros e veja que não temos nada a comemorar (os dados são do Ipas-Brasil):

“- Segundo a Sociedade Mundial de Vitimologia (Holanda), que pesquisou a violência doméstica em 138 mil mulheres de 54 países, 23% das mulheres brasileiras estão sujeitas à violência doméstica.

- A cada 4 minutos, uma mulher é agredida em seu próprio lar por uma pessoa com quem mantém relação de afeto.

- As estatísticas disponíveis e os registros nas delegacias especializadas de crimes contra a mulher demonstram que 70% dos incidentes acontecem dentro de casa e que o agressor é o próprio marido ou companheiro.

- Mais de 40% das violências resultam em lesões corporais graves decorrentes de socos, tapas, chutes, amarramentos, queimaduras, espancamentos e estrangulamentos.

- O Brasil é o país que mais sofre com a violência doméstica, perdendo cerca de 10,5% do seu PIB em decorrência desse grave problema.”

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Dados da violência contra a mulher em vários países você encontra aqui.

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Hoje, 25 de novembro, é Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher. A Denise organizou uma blogagem coletiva sobre o tema. A lista de participantes está aqui.

Um bom exemplo

August 24, 2005

Os índios cinta-larga aprenderam bem a lição. Descobriram como é bom usar cuecas. Isso que é um bom exemplo.

O movimento ludita e a tecnologia. A tecnologia e as companhias telefônicas

August 4, 2005

I.

O movimento ludita foi a reação mais radical dos trabalhadores ingleses às inovações tecnológicas proporcionadas pela Revolução Industrial, no início do século XIX. Incomodados com a “eficiente” redução de empregos causada pela utilização de máquinas no processo produtivo, os operários organizados em movimentos bem articulados atacavam durante a noite e em vários lugares ao mesmo tempo, obedecendo, segundo reza a lenda, a um certo General Ludd. Acreditavam que, ao causar prejuízo aos capitalistas, estariam forçando a volta ao sistema manufatureiro – aposentando definitivamente a máquina, essa usurpadora de empregos. Todavia, os avanços tecnológicos mostraram sua inexorabilidade. Hoje, aulas ministradas a um público infantil são acompanhadas de gargalhadas quando se descreve as ações do movimento ludita. Comprovação evidente, portanto, de que a estratégia do movimento estava errada.

II.

O telefone foi uma dentre as inúmeras invenções tecnológicas contemporâneas à Revolução Industrial. O escocês (naturalizado estadunidense) Graham Bell, baseando-se em um primitivo aparelho criado pelo padre francês Don Gauthey, criou o primeiro telefone. A invenção foi patenteada em 1876. Até então, a comunicação entre lugares distantes era feita, principalmente, utilizando os préstimos dos serviços postais. As cartas sofreriam, a partir daí, forte concorrência frente uma invenção que trazia, como novidade, a velocidade na transmissão de informações. Hoje, o poder financeiro das empresas telefônicas é muito maior do que as concorrentes postais. Principalmente com a invenção da Internet, o volume de cartas despencou notoriamente.

III.

A associação aparente entre capitalismo industrial e desenvolvimento tecnológico nos leva a crer que há uma parceria indissociável entre os mesmos. Nada mais enganoso, porém. Um exemplo disso é o que vem ocorrendo nos atuais progressos de telefonia com tecnologia VoIP. As empresas telefônicas olham com evidente desinteresse para essas novidades. A BrasilTelecom, por exemplo, foi denunciada recentemente pelo Ministério Público Federal do Tocantins por proibirem, em cláusula contratual, os assinantes da Internet Turbo (ADSL) de utilizar softwares baseados nessa tecnologia, como o Skype, Messenger, FoneUol, entre outros. Estariam as empresas telefônicas contra o mesmo movimento que propiciou a sua criação, a mais de século atrás?

IV.

Tal qual a hilaridade dos luditas, assim é a postura das Companhias Telefônicas. Beneficiaram-se das inovações tecnológicas, nascendo e crescendo sob a égide da modernidade técnica. Abominam-nas, contudo, quando se olham no espelho e vêem que, após um século, o telefone tal qual idealizado por Bell está superado. A sagacidade com que agarram a medonha “assinatura básica”, um artifício que permite às empresas cobrarem por um serviço não utilizado, demonstra o quão conservadores, egocêntricos e avaros são determinados setores da sociedade capitalista, mormente aqueles do topo da pirâmide social. Para as telefônicas, o mal agora é a tecnologia. Daí, portanto, medidas como a proibição do Skype e similares. Seria um retorno às avessas ao movimento ludita?

O Brasil é aqui. A Daslu, ali

July 24, 2005

Há muita gratidão pelo fim do programa Cidade Alerta na Rede Record de Televisão. Poucos, em sã consciência, achavam graça na espetacularização do crime.

Para evitar uma crise de soluços, o populacho migrou para o também trash Brasil Urgente, da Band.

Nesses programas não há nenhuma novidade. Só mudam os atores. Isto é, o nome das vítimas e dos acusados. Mas os rostos são familiares, comuns. Mesmo trocando o nome do bairro periférico, a paisagem continua sendo a mesma. Penúria. Miséria.

Pois é. Radicais mudanças aconteceram tanto nas TV’s quanto nas notícias. Daslu substituiu o Morro do Urubu. Ao vivo e em cores, a poderosa empresária seguiu no camburão. Tal qual um mané qualquer.

É difícil de pensar que isso está ocorrendo no Brasil. Tão difícil que muita gente já está reclamando. Entre eles, a poderosa FIESP. E são claros: não estão a favor da criminalidade, mas contra a espetacularização da ação da Polícia Federal.

Shows à parte, o espetáculo quem dá é a TV, a revista. Falar contra a PF é mais fácil do que falar contra a Globo. E se aquilo for espetáculo, ele é cotidiano para a maioria da população brasileira (ação da polícia nos morros lembra filme de Hollywood, não é mesmo?). A novidade (e põe novidade nisso) é a troca da Mariquinha pela Eliana.

É essa troca que não deve ter agradado. As barbas estarão de molho?

Os ricos também choram.

11 de setembro, o retorno (II)

July 12, 2005

A grande quantidade de flores em embaixadas britânicas do mundo inteiro me fez pensar em como sou frívolo e superficial. Não deveria mandar alguma? Foi com amargo na boca que vi a cena. Já suspeitam de mais de sete dezenas de vítimas no atentado.

O terrorismo é o mal do século XXI. Essa idéia já vem ganhando adeptos na grande imprensa. A repetição por indefinidas vezes faz a frase ficar verdadeira. Nem ao menos passa em nossa cabeça alguma outra visão diferente a respeito do terror.

Passo, pois, a procurar no dicionário. E lá está a definição:

Terrorismo sm. Modo de coagir, combater ou ameaçar pelo uso sistemático do terror.

Terror sm. 1. Estado de grande pavor. 2. Grande medo ou susto.

Assim definido, pensemos em duas situações prováveis:

Situação 1: jornais estadunidenses noticiaram que a Al Qaeda estava interessada em atacar alguma cidade do interior do país de Tio Sam. Boa parte da população ficou com os nervos à flor da pele. A paz real recebe a intromissão de algo estranho, incômodo.

Situação 2: desde a invasão do Iraque, explosões violentas se tornaram comuns. No medo presente e real, paz é algo sonhado, utópico.

Em uma das situações, o terror se manifesta com mais força. Mas nossa sensibilidade contraria nossa razão. Choramos pelo terror em menor proporção.

Vejo mães, filhos e amigos chorando as vítimas na Inglaterra. Num esforço, tento imaginar quantas centenas de órfãos e de pais desesperados as imediações do Eufrates e do Tigre tem conhecido. Sem nenhum tipo de cobertura da nossa independente imprensa, o esforço fica só na imaginação mesmo.

Comprarei flores. Os iraquianos merecem. A sanguinária ditadura de Saddan, a bárbara invasão ianque e a estupidez da violência dos rebeldes no Iraque mostram onde, de verdade, estão os apavorados pelo terror. Aproveito as lágrimas brotadas pelos atentados londrinos para chorar pelos iraquianos.

Maktub!

11 de setembro, o retorno

July 7, 2005

Repeteco quase quatro anos depois, agora em Londres. Os agressores não quiseram esperar quatro dias. Corriam o risco de alguém cantar parabéns e receberem um presente. Presente para os terroristas? Pode ser uma bomba arrasa-quarteirão. Afinal, temos que mostrar aos extremistas que nós, os moderados, somos capazes de tanta violência quanto eles. Imaginem se fossemos radicais…

O Ocidente está pagando pela burrice de ter se lançado vorazmente em territórios onde há tanta nitroglicerina. As arábias não são repúblicas de Bananas com seus bananas ao sul do Rio Grande. Estão longe disso. E bicudos não se bicam, não é verdade? Bush e Blair, os estúpidos-mor. Laden, o estúpido mas com a sincera cara de vilão.

A civilização européia-judaico-cristã, ainda crente de que se ganha tudo com ferro e fogo, está sendo duramente fustigada. Anos de imperialismo, embriagados pelo poderio econômico e bélico, deixaram os ocidentais cegos. Não perceberam que o preço de se ter nariz grande é morrer sem cabeça.

Quem paga? Quem não tem nada com isso. São os trabalhadores ingleses e espanhóis usuários de metrô, os cidadãos iraquianos ou os bombeiros e office-boys americanos no Word Trade Center que passam o recibo. Estúpidos por estúpidos, os brasileiros são melhores (“o melhor do Brasil é o brasileiro”, não é?). Lascam a sua vida, mas não acabam com ela. Te negam hospitais e escolas públicos de qualidade, mas não jogam granadas sem pino em você, nem explodem metrôs.

Com caras de otários, escutamos Mr. Bush dizer que quem mata inocentes tem demônio no coração. Logo ele, que é capaz de deixar birutinha qualquer demômetro*. E já aponta raivosamente para a Al Qaeda. (“Tudo ela, tudo ela…”). Provavelmente seja. Mas podem ser os franceses, ainda grilados por terem perdido a sede das olimpíadas em 2012 .

(tem gente que deve estar mais aliviado: a pauta principal dos jornais não vai ser mais mensalão)

* Demômetro: aparelho inventado e patenteado pelo famoso padre Quevedo. É capaz de detectar a presença de microsatãs em uma distância de até 500 metros. Não funciona na esplanada dos ministérios.