Advertência: além de estragar penteados e matar muçulmanos, fenômenos naturais destroem salões de beleza e igrejas cristãs

August 28, 2005

furacão

O furacão Katrina está despenteando as cabeças estadunidenses – independente de serem ateus, agnósticos ou financiadores do “The 700 Club”.

SSoB antecipou uma análise que deveria ser feita pelos religiosos comedores de sanduíche de pasta de amendoim ou pelos religiosos homens da TFP. Se o tsunami foi um castigo divino aos muçulmanos pelas maldades cometidas contra os cristãos, Katrina nada mais é que um aviso aos adoradores do elefante de que o patrãozinho está sendo muito malvado.

Provando que tenho uma imaginação fértil: não é que Katrina consegue formar a letra G, de God? Prova concreta de castigo celeste, não? ;)

g

Fundamentalismo é sempre fundamentalismo

August 24, 2005

O reverendo Pat Robertson é um sujeito franco. Expõe claramente o pensamento do conservador Partido Republicano, sem aquelas mesuras politicamente corretas tão comuns aos democratas. Ao admitir que já está passando da hora da CIA dar um fim no presidente Hugo Chavez, demonstrou a profunda incoerência e demasiada futilidade da maioria dos conservadores evangélicos estadunidenses, possuidores do péssimo hábito de se meterem em política – tal qual os fundamentalistas no Irã. Incoerência porque ‘desejo de matar’ não é, nem de longe, um sentimento cristão. Futilidade porque se envolvem com coisas tão simplórias – como a oposição ao ensino do evolucionismo nas escolas – com uma seriedade que falta quando se trata de vidas humanas. Os venezuelanos que se cuidem. Os terroristas estão querendo atacar de novo.

A era atômica e os heróis

August 9, 2005

Hoje se completa 60 anos do lançamento da segunda bomba atômica sobre um combalido Japão. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o cheiro do “Fim dos Dias” pairava sobre todos os terráqueos. Era, enfim, um substituto a altura do terrível bicho papão, metendo medo até em bebês barbados de setenta janeiros.

A era atômica inaugurou um novo período na história das guerras. Elimina-se aqui a figura do herói valente e destemido. O estadista vitorioso não mais se encontra nas frentes de batalha – comprovando quão pusilânimes são os homens de poder do século XXI.

As armas utilizadas pelos poderosos líderes são meras e simples canetas. São elas as mobilizadoras do poderoso arsenal das grandes potências mundiais. Caneta e bomba, champanha e feridas – separadas por milhares de quilômetros.

Covardia virou trunfo. Heróis de guerra são os mutilados, são os corpos que se sacrificam sabe-se-lá-por-qual-motivo. É compreensível, então, a satisfação altruísta dos inúmeros homens-bombas. É o heroísmo, o verdadeiro. Mas maldito o povo que precisa de heróis, já dizia Brecht…

Por isso o horror americano à produção nuclear em países hostis, como o Irã. Para quem estimula comportamentos heróicos, nada melhor que grandes feitos. A paranóia que reina no país dos super-heróis, conservando os exageros, tem fundamento.

É, o medo de tomar do próprio veneno está cada vez mais forte.

Sobre as estrelas cadentes

July 10, 2005

Estrelas cadentes não são estrelas. Essa lição elementar é aprendida pelos alunos na 5ª Série do Ensino Fundamental. De uma tacada só, aprendem o que são meteoritos e que as estrelas não caem.

Na história da humanidade, os astros exerceram um enorme fascínio. Estrelas, cometas e congêneres tem contribuído com uma infinidade de manifestações religiosas. Os astros se transformam em deuses e deusas.

Pouco conhecimento científico sobre a desconhecida amplitude do espaço exercitava a imaginação humana. Esse comportamento se reflete hoje no homem em graus variados da infância a velhice.

Todavia, o significado do termo “astro” tem mudado bastante. Depois de inúmeras descobertas científicas, o mundo parou de olhar embasbacado para o céu (salvo as ocasiões de eclipse lunar ou solar). Enxerga-se o dia e a noite, ignorando o Sol e a Lua. Tempo é dinheiro, afinal.

O tempo é dinheiro. O dinheiro se transformou no Sol da sociedade moderna. É o deus-maior. Como ser supremo, estimula a criação de outros astros a seu redor. Esses o circundam, em adoração à glória, ao poder, ao luxo.

Nesse mundo, não há espaço para meios termos. Comuns não são astros. Seja excepcional. Assim, os deuses se sucedem. Às vezes usam títulos nobiliárquicos. Essa modéstia não diminui sua divindade. Rei disso, rei daquilo. Rei do futebol. O rei da música. Rainha dos baixinhos. Astros. Estrelas. Constelações. Celebridades.

As crianças, a centenas de anos dos adoradores do Sol, se iniciam na nova arte da adoração. Das apresentadoras infantis a Disneworld (Neverland?), o novo fascínio das estrelas. Até que um astro a corrompa. Corrompa? Mas é um astro, e deuses não se julgam. E se julgam, devem ser absolvidos! Os deuses não erram.

Apesar disso, os exemplos se sucedem. Em uma ingênua, despropositada e descuidada afirmação, Ronaldo, o “Fenômeno”, disse que era branco. Desconfiaram de racismo velado, à la brasileira. Deuses não podem errar.

Até o partido da estrela vermelha sofreu dessa aura divina. Todos os seus componentes eram infalíveis, incorruptíveis. Parece que até os velhos oligarcas acreditavam nisso (antes não assumidamente por motivos óbvios), dada a perplexidade e a contínua repetição de que os petistas rasgaram sua bandeira. Os deuses não são corrompidos, nem corrompem.

Enfim, quer queiram ou não, os deuses são homens. Todos estamos corrompidos. Não há um justo sequer. Ninguém é estrela. Todos somos cadentes. E que atire a primeira pedra quem não for um companheiro de mãos sujas. Ops…

Globalização, lugar

July 6, 2005

Lembro-me da quantidade de trabalhos sobre globalização que inundaram as escolas na década de 1990. Foi, inclusive, capa da Revista Veja em 1996 (se minha valeriana memória não me trair). Quem não soubesse o que era a tal coisa, não passava de um ignorante.

A tradição sociológica francesa (que, como François Quesnais, prefere falar em mundialização) recusou firmemente a nova moda da globalização. A birra francesa era porque já estudavam a mundialização há bastante tempo, mas lhe foram negados a paternidade do conceito de global. Já havia todo um currículo de pesquisas na França sobre o encurtamento das distâncias e diminuição do tempo por meio do avanço tecnológico na informação e nos transportes.

O aprofundamento e difusão do tema logo se acompanhou de uma discussão paralela. Nunca tanto se falou sobre o lugar. Fenomenólogos, marxistas, neopositivistas, enfim, geógrafos e estudiosos de todos os matizes filosóficos se debruçaram na sobrevivência do “lugar”.

Oprimido pelo global, o lugar, aquela coisa única, particular, logo perderia sua identidade frente a possível homogeneidade do espaço. Nem de longe foi isso que aconteceu. O lugar está cada vez mais forte (que o diga o turismo). Mas o lugar não é mais como antes. O particular, o lugar em suas especificidades, em um flash da National Geography ou uma tomada da CNN, se torna global (ou mundial, como queiram). A intimidade do espaço geográfico é exposta, a título de globalização, para milhares de olhos consumidores e milhões de olhares (somente) desejosos.

É o mundo se tornando cada vez mais voyeur. Nós, Homo sapiens sapiens seculus XXI, somos globais em público, mas intimamente doidos pelo particular. As novas tecnologias têm nos ajudado. Qualquer que seja seu desejo, a tecnologia – esse gênio da lâmpada moderno – realiza. Mas pague, por favor.

Todavia, o tempo faz as tecnologias baratearem até ao infinito. O fim é a obsolescência. Ainda bem. Qualquer cidadão comum, rapazotes ou velhotes, já passeiam por aí com poderosas microcâmeras.

Elas, as microcâmeras, têm achincalhado a privacidade de muita gente. Klaus, o rapazote do Rio, e Marinho, o velhote de Brasília, são exemplos vivos de que o oculto tem pernas curtas (já a mentira, nem tanto). O que há de mais íntimo na sua vida pode estar somente na sua cabeça. Inclusive os chifres.

PS.: Para quem esteve fora do planeta na última semana, um breve glossário:

Valeriana: de Marcus Valério, publicitário que esqueceu o destino de dezenas de saques milionários feitos no Banco Rural, em Brasília.

Klaus: rapazote que gravou suas peripécias íntimas com a namorada e distribuiu na net. A mãe da garota não gostou e está intencionada em deixá-lo conhecer a intimidade de uma cela. Só não vai estar sozinho.

Marinho: Maurício Marinho, ex-diretor da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Flagrado angariando recursos, explica o inexplicável e ninguém entende nada. Hã?