Globalização, lugar

July 6, 2005

Lembro-me da quantidade de trabalhos sobre globalização que inundaram as escolas na década de 1990. Foi, inclusive, capa da Revista Veja em 1996 (se minha valeriana memória não me trair). Quem não soubesse o que era a tal coisa, não passava de um ignorante.

A tradição sociológica francesa (que, como François Quesnais, prefere falar em mundialização) recusou firmemente a nova moda da globalização. A birra francesa era porque já estudavam a mundialização há bastante tempo, mas lhe foram negados a paternidade do conceito de global. Já havia todo um currículo de pesquisas na França sobre o encurtamento das distâncias e diminuição do tempo por meio do avanço tecnológico na informação e nos transportes.

O aprofundamento e difusão do tema logo se acompanhou de uma discussão paralela. Nunca tanto se falou sobre o lugar. Fenomenólogos, marxistas, neopositivistas, enfim, geógrafos e estudiosos de todos os matizes filosóficos se debruçaram na sobrevivência do “lugar”.

Oprimido pelo global, o lugar, aquela coisa única, particular, logo perderia sua identidade frente a possível homogeneidade do espaço. Nem de longe foi isso que aconteceu. O lugar está cada vez mais forte (que o diga o turismo). Mas o lugar não é mais como antes. O particular, o lugar em suas especificidades, em um flash da National Geography ou uma tomada da CNN, se torna global (ou mundial, como queiram). A intimidade do espaço geográfico é exposta, a título de globalização, para milhares de olhos consumidores e milhões de olhares (somente) desejosos.

É o mundo se tornando cada vez mais voyeur. Nós, Homo sapiens sapiens seculus XXI, somos globais em público, mas intimamente doidos pelo particular. As novas tecnologias têm nos ajudado. Qualquer que seja seu desejo, a tecnologia – esse gênio da lâmpada moderno – realiza. Mas pague, por favor.

Todavia, o tempo faz as tecnologias baratearem até ao infinito. O fim é a obsolescência. Ainda bem. Qualquer cidadão comum, rapazotes ou velhotes, já passeiam por aí com poderosas microcâmeras.

Elas, as microcâmeras, têm achincalhado a privacidade de muita gente. Klaus, o rapazote do Rio, e Marinho, o velhote de Brasília, são exemplos vivos de que o oculto tem pernas curtas (já a mentira, nem tanto). O que há de mais íntimo na sua vida pode estar somente na sua cabeça. Inclusive os chifres.

PS.: Para quem esteve fora do planeta na última semana, um breve glossário:

Valeriana: de Marcus Valério, publicitário que esqueceu o destino de dezenas de saques milionários feitos no Banco Rural, em Brasília.

Klaus: rapazote que gravou suas peripécias íntimas com a namorada e distribuiu na net. A mãe da garota não gostou e está intencionada em deixá-lo conhecer a intimidade de uma cela. Só não vai estar sozinho.

Marinho: Maurício Marinho, ex-diretor da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Flagrado angariando recursos, explica o inexplicável e ninguém entende nada. Hã?

O sapo virou príncipe. O príncipe virou sapo?

No final da década de 1980 eu era um moleque ainda. Assistia Smurf, He-man, She-ra, Águia de Aço, Profissão Perigo. Mas também assistia aos Programas Eleitorais Gratuitos. Em um desses, tive a oportunidade de acompanhar a origem de um apelido que marcou por muitos anos um dos candidatos a presidente. Era o sapo barbudo.

Os anos seqüentes a eleição de 1989 me mostrou que esse apelido caricato ao ex-presidenciável era acompanhado de profunda rejeição por parte de muitos brasileiros ao partido que o tinha como um dos fundadores e principal nome. Sapo não era o homem. Sapo era o partido.

Vários presidentes e muitas maracutaias depois, o partido se tornou um sinônimo de ética e de democracia. Ética pelo apego ao zelo pelo bem público e pela fiscalização inescrutável do governo. Ética pela tolerância zero com negociatas e esquemas de corrupção. Ética pela promoção das Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI) à menor sombra de podridão. Democracia por compreender o pensamento diferente. Democracia por rechaçar qualquer forma de autoritarismo. Democracia pela própria constituição do partido, marcado por tendências da extrema-esquerda a correntes moderadas.

O povo brasileiro beijou o sapo. O anfíbio se transformou em príncipe. Os seus ideais haviam convencidos milhões de brasileiros de que um novo Brasil era possível e viável. A palavra mais lembrada ao agora príncipe era honestidade. Até que…

Começou a pipocar os escândalos. Waldomiro. Correios. Roberto. Exige-se CPI. Mas o partido da CPI se nega. Incoerência? Profunda. Tanto de um lado como de outro. Os bombeiros de antes viraram hoje incendiários, e vice-versa. Aceitou a CPI relutantemente, depois de cada vez ficar mais comprovado relações obscuras entre o publicitário Marcus Valério e dirigentes petistas.

Se a ética passou por rotas nunca dantes navegadas, a histórica imagem do Partido Democrático se desfaz pelo bordão “lugar de quem vota contra o governo é na oposição”. Liberdade de opinião? Só se for a favor do governo. Querem desmanchar verdadeiramente a imagem histórica do partido. Querem transformá-lo em mais um das dezenas que por aí existem.

O príncipe está virando sapo. E ninguém viverá feliz para sempre.