Jean Charles, o estrangeiro

July 30, 2005

Migrando.
Vivendo.

Eram os saxões estrangeiros
Em terras varonis
Aportando-se nas britânicas ilhas
Sem pontualidade.

Viva a Saxônia! Morte aos celtas!

Eram os europeus estrangeiros
Em terras varonis
Cá chegando Colombo
Atrasado centenas de anos.

Viva a Europa! Morte aos silvícolas!

Era um brasileiro estrangeiro
Em terras varonis
Quando por pura inglória
Assemelhou-se a outro estranho.

Morte (!). Morte (!).

Migrando.
Morrendo.

O Brasil é aqui. A Daslu, ali

July 24, 2005

Há muita gratidão pelo fim do programa Cidade Alerta na Rede Record de Televisão. Poucos, em sã consciência, achavam graça na espetacularização do crime.

Para evitar uma crise de soluços, o populacho migrou para o também trash Brasil Urgente, da Band.

Nesses programas não há nenhuma novidade. Só mudam os atores. Isto é, o nome das vítimas e dos acusados. Mas os rostos são familiares, comuns. Mesmo trocando o nome do bairro periférico, a paisagem continua sendo a mesma. Penúria. Miséria.

Pois é. Radicais mudanças aconteceram tanto nas TV’s quanto nas notícias. Daslu substituiu o Morro do Urubu. Ao vivo e em cores, a poderosa empresária seguiu no camburão. Tal qual um mané qualquer.

É difícil de pensar que isso está ocorrendo no Brasil. Tão difícil que muita gente já está reclamando. Entre eles, a poderosa FIESP. E são claros: não estão a favor da criminalidade, mas contra a espetacularização da ação da Polícia Federal.

Shows à parte, o espetáculo quem dá é a TV, a revista. Falar contra a PF é mais fácil do que falar contra a Globo. E se aquilo for espetáculo, ele é cotidiano para a maioria da população brasileira (ação da polícia nos morros lembra filme de Hollywood, não é mesmo?). A novidade (e põe novidade nisso) é a troca da Mariquinha pela Eliana.

É essa troca que não deve ter agradado. As barbas estarão de molho?

Os ricos também choram.

Milton: será que ele é?

July 20, 2005

No Orkut, há comunidades para todos os tipos de gostos. E também para todas as manias. Há quem goste de chuchu e existe também quem ama Hegel. Lá encontramos defensores de loiras inteligentes e quem acha que a saída do Brasil é voltar aos anos de chumbo. Enfim, o Orkut é uma fauna exótica e exuberante.

A geografia está lá. Com muita gente séria, com muita discussão boa. Mas também com uma seara de joio, bobagens e trivialidades.

Qualquer discussão sobre Geografia, o nome de Milton Santos é quase sempre citado. Por bem ou por mal. A comunidade para discussão de seu pensamento é tão grande quanto aquela voltada para debater a Geografia.

Independente a essa comunidade, existe uma outra, também vinculada ao seu nome, mas com propósito diferente. São legítimos contestadores da importância de Milton para a Geografia. Mas não pense que apareça alguma teoria que negue os fluxos e os fixos, a rugosidade do espaço, ou outra idéia geográfica associada às pesquisas do estudioso brasileiro. Não. Pelo contrário. São questões do tipo “será o Milton geógrafo?”, “Milton deu quantos chiliques?”, ou simplesmente eu-odeio-o-Milton-porque-ele-escreve-muito-difícil-e-é-muito-prepotente.

A primeira questão é, de longe, a mais levantada pelo grupo. Como pode uma pessoa que não tem registro no CREA (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura) ser intitulada de geógrafo (quanta heresia…)?

Desdobrando essa trivial descoberta, desvendaram também que nem sequer advogado Milton era, pois não tinha registro na OAB.

Isto é: não basta ter conhecimento notório, não é suficiente o reconhecimento de suas pesquisas, não é levado em conta títulos e mais títulos de “doutor honoris causa”. Qualquer graduado chinfrim em algum medíocre colégio de 3º grau por aí pode orgulhosamente ostentar o título de geógrafo. Menos o Milton, Humboldt, Ritter, Josué de Castro. Mesmo escrevendo “Geographicae” em 17 volumes, Estrabão nunca foi e nem pode ser considerado um geógrafo.

Por conclusão, jamais houve Geografia antes do século XIX. Essa data no Brasil ainda é mais recente (década de 1930).

Querem por lei garantir um “status” exclusivo para si e inacessível aos que realmente fizeram a Geografia. Seria inveja? Aliás, o que seria da Geografia Brasileira se excluíssem dos anais da História do Pensamento Geográfico no Brasil os estudos feitos por aqueles não-registrados no CREA?

O pior de tudo é ver na comunidade um graduando em Direito dar lições básicas do pensamento de Milton a bacharéis em Geografia, provavelmente registrados no CREA. Traduzindo: os sabichões “creanos” não conhecem sequer o pensamento geográfico. E querem para si, somente para si, o título de Geógrafo.

A continuar assim, os graduandos em Direito, Economia, Ciências Sociais e demais ciências humanas estarão cada vez mais próximos da Geografia epistemologicamente de que nós próprios, os geógrafos.

É lastimável.

O homem NÃO destrói a natureza

July 15, 2005

Pois é. Se seu humor for mais alto do que a média, diria que a frase está correta. Afinal, a mulher também colabora na malvada ação. Mas não se trata disso. O homem, nesse caso, fica valendo do bondoso recurso gramatical de atribuir ao masculino todo o gênero da espécie.

Reafirmo então: o ser humano não destrói a natureza. E isso não poderia surpreender. Ou pelo menos não devia, pois nesse caso há uma generalização simplória e ingênua.

Pensemos, pois, no avanço das madeireiras em territórios indígenas aqui na região Norte. Tanto o madeireiro quanto o índio são seres humanos. Mas um deles exerce sua ação na natureza com maior impacto significativo.

Imaginemos agora, a mesma espécie, Homo sapiens sapiens, a dois mil anos atrás. A intensidade dos problemas ambientais era obviamente nulo comparado com o atual. Isto é, o mesmo ser humano se relacionava com a natureza de forma diferente.

O homem, então, é diferente do mandruvá. A história social da humanidade imprime características próprias na espécie. O mesmo não ocorre com o bichinho verde nojento. Desde quando apareceu no mundo, não faz nada mais do que comer, dormir e…., bem, e dormir.

Logo, chegamos a uma conclusão: os seres humanos são os mesmos, mas a sociedade, a organização social é que faz a diferença.

No nosso caso presente, a sociedade capitalista, industrial e consumista tem no lucro sua espinha dorsal. Historicamente, temos percebido que o lucro mais cultura de consumo é igual a menos recursos naturais e mais lixo.

A natureza é vista, traduzida e relida em cifrão. Quanto mais eficiente sua exploração, mais riqueza acumulada. Pela natureza conflituosa da velha relação capital-trabalho, a riqueza acumulada pelas corporações é apropriada por alguns. Somente.

Em um mundo onde prevalecem as mega-empresas, a poluição é majoritariamente industrial, direta e indiretamente. Todavia, há um esforço concentrado em deixar a consciência de todo indivíduo pesada.

Às vezes me sinto responsável pelo buraco na camada de ozônio, vejam só…

A Terra, esse planeta coletivo, deixa de ser de todos. Ou, pelo menos, fica sendo mais de alguns do que de outros. Privatizam a riqueza e coletivizam os problemas ambientais. Querem mesmo é que alguém (nós) pague o pato.

11 de setembro, o retorno (II)

July 12, 2005

A grande quantidade de flores em embaixadas britânicas do mundo inteiro me fez pensar em como sou frívolo e superficial. Não deveria mandar alguma? Foi com amargo na boca que vi a cena. Já suspeitam de mais de sete dezenas de vítimas no atentado.

O terrorismo é o mal do século XXI. Essa idéia já vem ganhando adeptos na grande imprensa. A repetição por indefinidas vezes faz a frase ficar verdadeira. Nem ao menos passa em nossa cabeça alguma outra visão diferente a respeito do terror.

Passo, pois, a procurar no dicionário. E lá está a definição:

Terrorismo sm. Modo de coagir, combater ou ameaçar pelo uso sistemático do terror.

Terror sm. 1. Estado de grande pavor. 2. Grande medo ou susto.

Assim definido, pensemos em duas situações prováveis:

Situação 1: jornais estadunidenses noticiaram que a Al Qaeda estava interessada em atacar alguma cidade do interior do país de Tio Sam. Boa parte da população ficou com os nervos à flor da pele. A paz real recebe a intromissão de algo estranho, incômodo.

Situação 2: desde a invasão do Iraque, explosões violentas se tornaram comuns. No medo presente e real, paz é algo sonhado, utópico.

Em uma das situações, o terror se manifesta com mais força. Mas nossa sensibilidade contraria nossa razão. Choramos pelo terror em menor proporção.

Vejo mães, filhos e amigos chorando as vítimas na Inglaterra. Num esforço, tento imaginar quantas centenas de órfãos e de pais desesperados as imediações do Eufrates e do Tigre tem conhecido. Sem nenhum tipo de cobertura da nossa independente imprensa, o esforço fica só na imaginação mesmo.

Comprarei flores. Os iraquianos merecem. A sanguinária ditadura de Saddan, a bárbara invasão ianque e a estupidez da violência dos rebeldes no Iraque mostram onde, de verdade, estão os apavorados pelo terror. Aproveito as lágrimas brotadas pelos atentados londrinos para chorar pelos iraquianos.

Maktub!

Sobre as estrelas cadentes

July 10, 2005

Estrelas cadentes não são estrelas. Essa lição elementar é aprendida pelos alunos na 5ª Série do Ensino Fundamental. De uma tacada só, aprendem o que são meteoritos e que as estrelas não caem.

Na história da humanidade, os astros exerceram um enorme fascínio. Estrelas, cometas e congêneres tem contribuído com uma infinidade de manifestações religiosas. Os astros se transformam em deuses e deusas.

Pouco conhecimento científico sobre a desconhecida amplitude do espaço exercitava a imaginação humana. Esse comportamento se reflete hoje no homem em graus variados da infância a velhice.

Todavia, o significado do termo “astro” tem mudado bastante. Depois de inúmeras descobertas científicas, o mundo parou de olhar embasbacado para o céu (salvo as ocasiões de eclipse lunar ou solar). Enxerga-se o dia e a noite, ignorando o Sol e a Lua. Tempo é dinheiro, afinal.

O tempo é dinheiro. O dinheiro se transformou no Sol da sociedade moderna. É o deus-maior. Como ser supremo, estimula a criação de outros astros a seu redor. Esses o circundam, em adoração à glória, ao poder, ao luxo.

Nesse mundo, não há espaço para meios termos. Comuns não são astros. Seja excepcional. Assim, os deuses se sucedem. Às vezes usam títulos nobiliárquicos. Essa modéstia não diminui sua divindade. Rei disso, rei daquilo. Rei do futebol. O rei da música. Rainha dos baixinhos. Astros. Estrelas. Constelações. Celebridades.

As crianças, a centenas de anos dos adoradores do Sol, se iniciam na nova arte da adoração. Das apresentadoras infantis a Disneworld (Neverland?), o novo fascínio das estrelas. Até que um astro a corrompa. Corrompa? Mas é um astro, e deuses não se julgam. E se julgam, devem ser absolvidos! Os deuses não erram.

Apesar disso, os exemplos se sucedem. Em uma ingênua, despropositada e descuidada afirmação, Ronaldo, o “Fenômeno”, disse que era branco. Desconfiaram de racismo velado, à la brasileira. Deuses não podem errar.

Até o partido da estrela vermelha sofreu dessa aura divina. Todos os seus componentes eram infalíveis, incorruptíveis. Parece que até os velhos oligarcas acreditavam nisso (antes não assumidamente por motivos óbvios), dada a perplexidade e a contínua repetição de que os petistas rasgaram sua bandeira. Os deuses não são corrompidos, nem corrompem.

Enfim, quer queiram ou não, os deuses são homens. Todos estamos corrompidos. Não há um justo sequer. Ninguém é estrela. Todos somos cadentes. E que atire a primeira pedra quem não for um companheiro de mãos sujas. Ops…

Igualité et Formule Un

July 9, 2005

Igualdade, liberdade, fraternidade. Esse talvez seja o ideal político mais famoso do mundo e símbolo mais lembrado da Revolução Francesa.

(Das três palavrinhas básicas, a mais pouco lembrada é a fraternidade. Seria por seu conteúdo muito piegas, sentimentalóide?)

Muitos entendem, principalmente os liberais, que essa igualdade é uma igualdade de condições. O resultado, o produto do trabalho, seria de acordo com a maestria individual apresentada.

Quem está mais a direita desse pensamento (sim, ainda acredito que exista direita e esquerda) defende ainda que a própria condição inicial é fruto de habilidades próprias.

No atual campeonato de Fórmula-1, temos um exemplo claro desses dois pensamentos. A Federação Internacional de Automobilismo (FIA) pensa como os primeiros. A Ferrari incorpora a segunda idéia.

A FIA está preparando um pacote de novidades para o campeonato de 2007. O objetivo é aumentar a competitividade entre as equipes. Além de padronizar alguns componentes (pneus, câmbios) e em abolir várias criações tecnológicas, como o cambio automático.

A Ferrari e o Galvão Bueno são contrários. O sabor da inigualável superioridade de anos seguidos ainda está adoçando a boca de ferraristas. Já Galvão acha que o que diferencia a F-1 das demais categorias automobilísticas são os perdulicários tecnológicos.

Concordo com a FIA. Não há nada mais sem graça que ficar assistindo duas horas de corrida para somente verem ultrapassagens em momentos de pit’s. Isto é, das duas horas, somente alguns minutos são interessantes.

Dada a realidade, é praticamente impossível uma Jordan cruzar a linha de chegada em primeiro lugar. Como também é improvável um Zé qualquer se integrar a esse desejoso mundo de consumo que aí está, livre e disponível pra qualquer um.

A menos que, revolucionariamente, as poderosas equipes sejam mandadas para o Box. Todas.

11 de setembro, o retorno

July 7, 2005

Repeteco quase quatro anos depois, agora em Londres. Os agressores não quiseram esperar quatro dias. Corriam o risco de alguém cantar parabéns e receberem um presente. Presente para os terroristas? Pode ser uma bomba arrasa-quarteirão. Afinal, temos que mostrar aos extremistas que nós, os moderados, somos capazes de tanta violência quanto eles. Imaginem se fossemos radicais…

O Ocidente está pagando pela burrice de ter se lançado vorazmente em territórios onde há tanta nitroglicerina. As arábias não são repúblicas de Bananas com seus bananas ao sul do Rio Grande. Estão longe disso. E bicudos não se bicam, não é verdade? Bush e Blair, os estúpidos-mor. Laden, o estúpido mas com a sincera cara de vilão.

A civilização européia-judaico-cristã, ainda crente de que se ganha tudo com ferro e fogo, está sendo duramente fustigada. Anos de imperialismo, embriagados pelo poderio econômico e bélico, deixaram os ocidentais cegos. Não perceberam que o preço de se ter nariz grande é morrer sem cabeça.

Quem paga? Quem não tem nada com isso. São os trabalhadores ingleses e espanhóis usuários de metrô, os cidadãos iraquianos ou os bombeiros e office-boys americanos no Word Trade Center que passam o recibo. Estúpidos por estúpidos, os brasileiros são melhores (“o melhor do Brasil é o brasileiro”, não é?). Lascam a sua vida, mas não acabam com ela. Te negam hospitais e escolas públicos de qualidade, mas não jogam granadas sem pino em você, nem explodem metrôs.

Com caras de otários, escutamos Mr. Bush dizer que quem mata inocentes tem demônio no coração. Logo ele, que é capaz de deixar birutinha qualquer demômetro*. E já aponta raivosamente para a Al Qaeda. (“Tudo ela, tudo ela…”). Provavelmente seja. Mas podem ser os franceses, ainda grilados por terem perdido a sede das olimpíadas em 2012 .

(tem gente que deve estar mais aliviado: a pauta principal dos jornais não vai ser mais mensalão)

* Demômetro: aparelho inventado e patenteado pelo famoso padre Quevedo. É capaz de detectar a presença de microsatãs em uma distância de até 500 metros. Não funciona na esplanada dos ministérios.

Globalização, lugar

July 6, 2005

Lembro-me da quantidade de trabalhos sobre globalização que inundaram as escolas na década de 1990. Foi, inclusive, capa da Revista Veja em 1996 (se minha valeriana memória não me trair). Quem não soubesse o que era a tal coisa, não passava de um ignorante.

A tradição sociológica francesa (que, como François Quesnais, prefere falar em mundialização) recusou firmemente a nova moda da globalização. A birra francesa era porque já estudavam a mundialização há bastante tempo, mas lhe foram negados a paternidade do conceito de global. Já havia todo um currículo de pesquisas na França sobre o encurtamento das distâncias e diminuição do tempo por meio do avanço tecnológico na informação e nos transportes.

O aprofundamento e difusão do tema logo se acompanhou de uma discussão paralela. Nunca tanto se falou sobre o lugar. Fenomenólogos, marxistas, neopositivistas, enfim, geógrafos e estudiosos de todos os matizes filosóficos se debruçaram na sobrevivência do “lugar”.

Oprimido pelo global, o lugar, aquela coisa única, particular, logo perderia sua identidade frente a possível homogeneidade do espaço. Nem de longe foi isso que aconteceu. O lugar está cada vez mais forte (que o diga o turismo). Mas o lugar não é mais como antes. O particular, o lugar em suas especificidades, em um flash da National Geography ou uma tomada da CNN, se torna global (ou mundial, como queiram). A intimidade do espaço geográfico é exposta, a título de globalização, para milhares de olhos consumidores e milhões de olhares (somente) desejosos.

É o mundo se tornando cada vez mais voyeur. Nós, Homo sapiens sapiens seculus XXI, somos globais em público, mas intimamente doidos pelo particular. As novas tecnologias têm nos ajudado. Qualquer que seja seu desejo, a tecnologia – esse gênio da lâmpada moderno – realiza. Mas pague, por favor.

Todavia, o tempo faz as tecnologias baratearem até ao infinito. O fim é a obsolescência. Ainda bem. Qualquer cidadão comum, rapazotes ou velhotes, já passeiam por aí com poderosas microcâmeras.

Elas, as microcâmeras, têm achincalhado a privacidade de muita gente. Klaus, o rapazote do Rio, e Marinho, o velhote de Brasília, são exemplos vivos de que o oculto tem pernas curtas (já a mentira, nem tanto). O que há de mais íntimo na sua vida pode estar somente na sua cabeça. Inclusive os chifres.

PS.: Para quem esteve fora do planeta na última semana, um breve glossário:

Valeriana: de Marcus Valério, publicitário que esqueceu o destino de dezenas de saques milionários feitos no Banco Rural, em Brasília.

Klaus: rapazote que gravou suas peripécias íntimas com a namorada e distribuiu na net. A mãe da garota não gostou e está intencionada em deixá-lo conhecer a intimidade de uma cela. Só não vai estar sozinho.

Marinho: Maurício Marinho, ex-diretor da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Flagrado angariando recursos, explica o inexplicável e ninguém entende nada. Hã?

O sapo virou príncipe. O príncipe virou sapo?

No final da década de 1980 eu era um moleque ainda. Assistia Smurf, He-man, She-ra, Águia de Aço, Profissão Perigo. Mas também assistia aos Programas Eleitorais Gratuitos. Em um desses, tive a oportunidade de acompanhar a origem de um apelido que marcou por muitos anos um dos candidatos a presidente. Era o sapo barbudo.

Os anos seqüentes a eleição de 1989 me mostrou que esse apelido caricato ao ex-presidenciável era acompanhado de profunda rejeição por parte de muitos brasileiros ao partido que o tinha como um dos fundadores e principal nome. Sapo não era o homem. Sapo era o partido.

Vários presidentes e muitas maracutaias depois, o partido se tornou um sinônimo de ética e de democracia. Ética pelo apego ao zelo pelo bem público e pela fiscalização inescrutável do governo. Ética pela tolerância zero com negociatas e esquemas de corrupção. Ética pela promoção das Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI) à menor sombra de podridão. Democracia por compreender o pensamento diferente. Democracia por rechaçar qualquer forma de autoritarismo. Democracia pela própria constituição do partido, marcado por tendências da extrema-esquerda a correntes moderadas.

O povo brasileiro beijou o sapo. O anfíbio se transformou em príncipe. Os seus ideais haviam convencidos milhões de brasileiros de que um novo Brasil era possível e viável. A palavra mais lembrada ao agora príncipe era honestidade. Até que…

Começou a pipocar os escândalos. Waldomiro. Correios. Roberto. Exige-se CPI. Mas o partido da CPI se nega. Incoerência? Profunda. Tanto de um lado como de outro. Os bombeiros de antes viraram hoje incendiários, e vice-versa. Aceitou a CPI relutantemente, depois de cada vez ficar mais comprovado relações obscuras entre o publicitário Marcus Valério e dirigentes petistas.

Se a ética passou por rotas nunca dantes navegadas, a histórica imagem do Partido Democrático se desfaz pelo bordão “lugar de quem vota contra o governo é na oposição”. Liberdade de opinião? Só se for a favor do governo. Querem desmanchar verdadeiramente a imagem histórica do partido. Querem transformá-lo em mais um das dezenas que por aí existem.

O príncipe está virando sapo. E ninguém viverá feliz para sempre.